Vitórias inestimáveis, o sonho de ser cientista

Pesquisadora visitante na Universidade de Zagreb, na Croácia, Letícia Pontes conta um pouco da sua trajetória na academia e na realização do sonho de ser cientista

Letícia Pontes

Minha família e amigos sempre me disseram que eu deveria lutar por meus sonhos. Sempre quis ser cientista, acredito que eles nunca imaginaram onde realmente isso ia me levar.

Hoje estou na Croácia como pesquisadora visitante na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Zagreb. Realmente nossos sonhos podem nos levar a lugares inimagináveis. O mais importante é nunca desistir e ver cada desafio como uma oportunidade única de crescimento profissional e pessoal.

Veja oportunidades abertas em bolsa e editais de pesquisa

Ser cientista nunca foi uma opção fácil para mim. Quando sai da graduação em Biologia pela Universidade Estadual de São Paulo, unidade de Bauru, tinha realizado iniciação cientifica, contribuído como monitora de algumas disciplinas e foi bolsista de treinamento técnico laboratorial. Contudo não imaginava o que fazer para ser uma cientista. Todas as noites quando ia me deitar pensava “quais caminhos deviria seguir para realizar o meu sonho” e me senti por muitas vezes desesperada por não saber o que fazer.

Mas as oportunidades surgem quando menos esperamos. Através de uma amiga conheci o CEVAP e as pesquisas ali em desenvolvimento. Nesse momento vi a oportunidade de realizar o meu sonho.

Os pesquisadores do CEVAP desenvolveram um selante baseado no mesmo princípio natural de coagulação do sangue, composto por sangue de búfalo e veneno de cascavel. Essa mistura incomum deu origem a um cicatrizante para seres humanos portadores de úlceras crônicas (feridas que causam dor).

Para a realização das próximas fases desse grande projeto em desenvolvimento pelo CEVAP havia a necessidade de conhecer mais da composição do sangue dos búfalos sorodoadores e desenvolver analises para separar animais sadios e bons doadores.

O que ninguém imaginou é que essas perguntas biológicas poderiam ter reconhecimento internacional pelo seu ineditismo e ideias inovadoras de pesquisa e desenvolvimento biotecnológico. Nosso trabalho da descrição do plasma de búfalo através da abordagem proteômica foi capa da revista Proteomics Clinical Applications (Volume 11, Issue 9-10, 2017), um Journal em excelência na área de Proteômica Clínica e creditada pela Organização Mundial de Proteômica (HUPO – Human Proteome Organization). A imagem da capa da revista foi elaborada de modo que refletisse a dedicação e experiência científica da equipe envolvida.  Acesse http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/prca.v11.9-10/issuetoc.

 O reconhecimento leva tempo mas um bom trabalho, feito com dedicação e comprometimento, não passa despercebido. Foram 5 anos de trabalho árduo para que isso se tornasse realizada. É um grande projeto realizado por uma grande equipe multidisciplinar. Realmente não é fácil. Ser cientista é pensar no futuro, estudar e se preparar diariamente para imprevisto. Falta de recursos financeiros, alguns alunos desistem da academia e deixam a equipe e nem sempre o previsto ocorre mas faz parte do trabalho do pesquisador ter jogo de cintura. Ter sempre o plano B, C e D para finalizar a sua pesquisa com as condições que lhe são dadas e nos prazos que lhe são impostos pelos órgãos de fomento.

Muitas vezes devemos ser sinceros com nos mesmos: Aonde eu quero chegar? Quantas horas por dia eu vou me dedicar para realizar o meu sonho? Me fiz varias vezes essas perguntas e mesmo sabendo que o caminho seria árduo e que não seria fácil entrei no doutorado. Gostaria de contribuir ainda mais para o desenvolvimento do selante então agora precisava desenvolver um conjunto de analises para separar animais sadios e bons doadores.

O trabalho deveria ser ousado e ter grande impacto como o meu trabalho de mestrado obtive, mas por onde começar, novamente pensei: “quais caminhos deviria seguir para realizar o meu sonho”. Por onde deveria começar? Em um congresso ao encontrar um pesquisador com muito mais experiência obtive a resposta. Deveria obter novos parceiros e colaboradores, mesmo sendo um grande projeto ainda precisávamos de mais pessoas experientes para nos guiar, esse é o caminho para crescer. Com a ajuda da minha orientadora a Prof. Dr. Lucilene Delazari dos Santos, escrevi o meu projeto de doutorado para pleitear uma bolsa de estudos para o exterior.

Quando pensar em desistir, pense no porque você começou. Eu comecei porque esse sempre foi o meu sonho. Na segunda tentativa fui contemplada com a bolsa de estudos para realizar parte do meu Doutorado na Croácia. Uma nova aventura, uma nova vida, uma nova oportunidade de seguir o caminho certo para realizar o meu sonho de ser cientista. Nada foi capaz de me tirar do meu maior foco. Ao chegar na Croácia me deparei com uma língua diferente, pessoas com costumes totalmente diferentes e um estilo de vida completamente diferente do meu. Cada dia uma aventura de crescimento e oportunidades.

Hoje consigo ver que o caminho é tortuoso, a todos os momentos somos testados porque as barreiras não são fáceis mas hoje apos todos os momentos de inseguranças e incertezas ha vitórias inestimáveis.

Leticia Gomes de Pontes, aluna de doutorado do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (CEVAP) da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu.

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