Plataforma Lattes ‘envelheceu’ e será modernizada, diz presidente do CNPq

Mario Neto Borges afirma que falhas na atualização de currículos e na integração com Orcid serão resolvidas até o final deste ano.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor

Desde o final de 2016 passaram a ser mais frequentes as falhas na atualização dos chamados currículos Lattes. Após cerca de um ano e meio considerando “pontuais” esses transtornos, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) finalmente reconheceu que eles se devem ao envelhecimento da  Plataforma Lattes e pretende modernizá-la até o final deste ano.

Inaugurada em agosto de 1999, a base de dados teve a origem do caráter estrutural de suas falhas reconhecida pelo próprio presidente do CNPq, o engenheiro elétrico e pesquisador em inteligência artificial Mario Neto Borges. Esse envelhecimento faz também com que a plataforma exija procedimentos trabalhosos e demorados para atualização de currículos. “Ninguém aguenta ficar preenchendo formulários [dessa forma]”, afirmou o dirigente da agência federal em entrevista por telefone ontem, segunda-feira (25) a Direto da Ciência.

Consagrado como um padrão nacional para acadêmicos e pesquisadores atuantes no Brasil, o Currículo Lattes se tornou elemento de análise de avaliação para concursos, promoções e concessões de bolsas e financiamento a pesquisas. As falhas nas atualizações têm complicado a vida daqueles que precisam incluir em seus currículos informações necessárias para inscrição em exames, processos seletivos e outras atividades.

A modernização a que se refere o dirigente da agência deverá incluir também a integração com plataformas internacionais, como a Orcid (Open Researcher and Contributor ID), que vem sendo usada cada vez mais em todo o mundo. “A plataforma só ‘fala’ português. Não foi concebida para [usuários] estrangeiros”, disse Borges.

“Batizada” em homenagem ao físico Cesare Mansueto Giulio Lattes (1924-2005), a Plataforma Lattes tem mais de 5 milhões de usuários cadastrados. É a maior base de dados de currículos do mundo e exige tecnologia de Big Data, segundo Borges. Recentemente, além das queixas de erros de sistema ao tentar atualizar currículos com dados de novas publicações e projetos de pesquisa, tornaram-se frequentes as falhas na inclusão de códigos Orcid.

 

‘Trabalho complexo e delicado’

O código ORCiD é um identificador digital único e permanente de autores que permite o registro e acompanhamento gratuitos de publicações e outras produções e atividades científicas. Para incluí-lo em seus currículos Lattes, os pesquisadores são orientados a inseri-lo em um campo específico e clicar em “Validar”. Usuários relatam que após seguirem essa instrução, surge na tela o aviso “Recuperando dados”, e aparece em seguida a mensagem “Não foi possível verificar o identificador ORCID. Tente mais tarde.“

Integrado ao Lattes desde agosto de 2016, o registro no Orcid tem sido recomendado no Brasil por várias instituições de ensino superior e pesquisa. No entanto, a integração manual adotada pelo CNPq ainda não é adequada, segundo Ana Heredia, coordenadora do Orcid na América Latina. “A maneira correta de fazê-lo é através de uma autenticação máquina a máquina, na qual o usuário dá permissão para que haja interoperabilidade entre seu registro Orcid e organizações de confiança, o que só ocorre com uma integração entre os sistemas”, explicou Heredia.

“Sabemos que CNPq está trabalhando para integrar com a API [interface de programação de aplicações] de membro da Orcid, de modo que esperamos que, em breve, haja a real interoperabilidade que os pesquisadores esperam entre os sistemas”, afirmou a coordenadora do Orcid, que já tem cerca de 118 mil usuários cadastrados no Brasil.

Usado por agências de fomento, universidades e instituições de pesquisa, o Orcid foi desenvolvido por grupos editoriais científicos internacionais, como Springer-Nature, Elsevier, Thomson Reuters, e também por instituições de pesquisa e outras organizações científicas. É administrado por uma entidade sem fins lucrativos de mesmo nome sediada em Bethesda, no estado de Maryland, a mesma cidade dos Estados Unidos onde estão os Institutos Nacionais de Saúde (NIH).

Para integrar o Orcid a bases de dados do país, em maio o Consórcio Brasileiro Orcid foi assinado pelo CNPq, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), do Ministério da Educação, e por outras instituições.

Apesar de prever essa autenticação automática máquina a máquina até o final do ano, o presidente do CNPq afirmou que a plena e desejada conexão de dados entre os sistemas poderá demorar pouco mais. É um “trabalho complexo e delicado”, disse Mario Borges Neto, que na entrevista afirmou não se lembrar dos custos totais dessa modernização, que envolve também a Rede Nacional de Pesquisas (RNP).

 

Vale a pena?

Direto da Ciência noticiou reclamações falhas na Plataforma Lattes pela primeira vez em fevereiro de 2017. E voltou a divulgar queixas como essas no mês seguinte e novamente neste ano em fevereiro e em abril. Ao ser questionado para essas reportagens, o CNPq afirmava que os problemas eram “pontuais” e que teriam sido solucionados.

Esses problemas e a existência de outras bases de dados consagradas na comunidade científica internacional como a Orcid, a ResearcherID, da Thomson Reuters, e a Scopus, da Elsevier, têm levado pesquisadores brasileiros a questionar em redes sociais a necessidade de manutenção da Plataforma Lattes.

Um deles é o biólogo Marcelo Hermes-Lima, professor do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB), que também afirmou ter enfrentado “muitas dificuldades” para enviar um relatório ao CNPq porque não conseguia atualizar os dados de seu currículo.

“Na época em que o Lattes foi criado, era realmente algo necessário. A ideia era de que devemos ter nossos currículos de forma transparente, e isso pode ser perfeitamente feito por meio de outras plataformas que já existem”, disse Hermes-Lima.

Outros avaliam que a Plataforma Lattes deve ser mantida e aprimorada. “Ela tem um significado relevante para a comunidade científica brasileira e bases internacionais, embora importantes, não cumprirão adequadamente o papel dela. Ela está com problemas, assim como outros sistemas no CNPq, por causa dos acentuados cortes de recursos e da diminuição significativa de pessoal nesta agência, que é fundamental para a ciencia brasileira”, disse o físico Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

“Temos de nos mobilizar e cobrar a a recuperação das plenas condições de funcionamento do CNPq (inclusive dos recursos para editais e bolsas) e o aprimoramento da Plataforma Lattes e da Plataforma Chagas”, afirmou Moreira.

Apesar de também defender a manutenção do Lattes, o presidente do CNPq entende que a questão sobre a continuidade do sistema “é uma reflexão importante” em vista do desafio de integração efetiva com plataformas internacionais.

Para Mario Neto Borges, mais que uma base de dados, o Lattes é uma valiosa base de conhecimentos sobre a comunidade científica brasileira e sua produção. “É uma mina de ouro. Mas uma mina de ouro não vale nada se estiver enterrada”, disse Borges, que afirmou acreditar que o desafio de modernização seria superado.

Na imagem acima, o engenheiro elétrico e pesquisador em inteligência artificial Mario Neto Borges, presidente do Conselho nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foto: MCTI/Ascom/Divulgação.

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