Biocurativo de sangue de búfalo e veneno de cascavel ajuda no tratamento de úlceras

Sangue de búfalo e veneno de cascavel. Essa mistura incomum deu origem a um cicatrizante para seres humanos portadores de úlceras crônicas que provocam dores atrozes, como as ocorrências nas pernas e nos pés. Denominado selante de fibrina, o biocurativo já foi experimentado com êxito em 25 pacientes humanos e também em animais, assegura Rui Seabra F. Júnior, de 41 anos, PhD em veterinária e diretor-geral do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap), da    Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, no interior de São Paulo.

 

O selante é baseado no mesmo princípio natural de coagulação do sangue. Várias etapas já foram superadas. A atual é a de multiplicação do uso em um número superior de pacientes envolvendo hospitais em diversos Estados. Depois, finalmente, a proposta é chegar ao mercado, seja por meio de alguma indústria ou de um órgão público, adianta Rui Seabra.

O adesivo cirúrgico pode ser empregado também para colagem de pele, de nervos e cirurgias de gengivas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu autorização para o produto, relata Benedito Barravieira, professor do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Unesp. Barravieira está envolvido com o projeto desde seu início, em 1989.

Houve também participação ativa de biólogos, veterinários, médicos, bioquímicos e outros profissionais do Cevap. “Foi um trabalho pioneiro e agregador. Desconheço experiência semelhante no Brasil”, observa Rui Seabra.

A reportagem de Globo Rural esteve no Cevap no mês passado. Foi saber o motivo da escolha do sangue do bubalino para a produção do selante, e não o do bovino, por exemplo. “O sangue do búfalo possui mais fibrinogênio em comparação com outros animais, e isso é decisivo”, explica Barravieira.

O fibrinogênio é uma proteína que ajuda a coagulação do sangue e a cicatrização das feridas. Outro fator positivo que levou à opção pelo búfalo foi a sua rusticidade. “Ele se alimenta diretamente no pasto, ou seja, o manejo é mais barato”, diz Rui Seabra. Além disso, com seis a oito meses de idade já é possível a retirada de sangue. Rui Seabra diz que não há idade limite para a coleta, outro trunfo do búfalo.

A raça usada pelo Cevap é a murrah, de médio porte. Originária  daÍndia, é muito robusta. O rebanho do Cevap fica na área íngreme da região de Botucatu, formada por montanhas. É difícil locomover-se por lá. Para o búfalo, não.

Barravieira, que foi vice-reitor da Unesp, observa que existem no mercado selantes que mimetizam a coagulação do sangue humano. “Eles são eficientes, mas como, nesse caso, o fibrinogênio é retirado do sangue do homem, o produto pode estar contaminado com vírus, como o da hepatite”, diz. Rui Seabra concorda. Dessa forma, o selante do Cevap foi criado para substituir o feito com sangue humano, utilizado em produtos comerciais. “Evita a transmissão de doenças infecciosas”, diz Barravieira.

Os dois estudiosos informam que o veneno é retirado da cobra cascavel, porém, a jararaca também traz bons resultados. A enzima obtida a partir do veneno da cobra e o fibrinogênio extraído do sangue do búfalo resultam no selante de fibrina. A ação é baseada no princípio natural da coagulação, segundo os estudiosos.

Aplicações

Rui Seabra diz que a finalidade das pesquisas no Cevap é transferir os  resultados para a população, como é o caso do adesivo cirúrgico. O produto foi desenvolvido e é voltado para o brasileiro que usa os serviços públicos de saúde. Como é um produto 100% nacional, seu custo permitirá o uso na rotina dos hospitais, e o selante será acessível à população menos favorecida, prevê ele. Mais de R$ 4,5 milhões foram aplicados nas experiências por órgãos públicos como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Ao longo do tempo, foi avaliado o sangue de boi, de carneiro e de cavalo, até constatar-se que o búfalo possuía concentração maior do princípio ativo.

Além dos investimentos em búfalos, o Cevap comprou equipamentos de ponta e de grande porte, por conta da necessidade de purificação das toxinas. “O que não faltou foi audácia”, enfatiza Rui Seabra, apontando para máquinas de até R$ 1 milhão, como a do Banco de Sangue, que acondiciona o sangue de animais para estudos no futuro.

Tanto Barravieira como Rui Seabra afirmam que as pesquisas foram aceleradas a partir de dois anos atrás, quando o criador Aristides Pavan, da Fazenda Céu Azul, de Pereiras (SP), colocou 50 búfalos à disposição do Cevap. “As experiências foram facilitadas. Fazemos o manejo dos búfalos, que permanecem na propriedade do Aristides, e colhemos lá o material necessário”, afirma Rui Seabra.

Segundo ele, o êxito alcançado também em cirurgias de gengiva levam pesquisadores a se interessar pelo uso do adesivo em aplicações ainda não testadas, como as células-tronco.

Para essa finalidade, é necessário um laboratório semi-industrial com capacidade para produzir muito mais fibrinogênio e material de serpente para pesquisa.

Abelhas e antídoto

O Cevap e o Instituto Vital Brasil, do Rio de Janeiro, em parceria, promoveram no mês passado o lançamento do ensaio clínico do chamado soro antiapílico. “Esse produto é contra a picada de abelhas africanizadas, cujos ataques chegam a matar 50 pessoas por ano no Brasil”, afirma Rui Seabra, diretor do Cevap. Segundo ele, o soro, que já foi testado em camundogos, objetiva atender pessoas atacadas que recebem dezenas ou centenas de picadas de abelhas de uma só vez. O lançamento aconteceu na cidade de São Paulo.

Rui Seabra explica que, na primeira fase, será feita a avaliação da segurança, e depois a eficácia do soro. Na década de 1970, as abelhas africanizadas ficaram conhecidas por conta da sua agressividade. Elas continuam atacando, e essa é a razão do estudo visando ao uso do soro.

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